Este capítulo é baseado em Atos 9:1-18.
Entre os guias judeus que ficaram profundamente abalados com o êxito que acompanhava a proclamação do evangelho, encontrava-se, preeminentemente, Saulo de Tarso. Cidadão romano de nascimento, Saulo era não obstante judeu por descendência, e fora educado em Jerusalém pelos mais eminentes rabis. “Da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim”, era Saulo “hebreu de hebreus”; segundo a lei, foi “fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja, segundo a justiça que há na lei, irrepreensível”. Filipenses 3:5, 6. Era considerado pelos rabinos como um jovem altamente promissor, e grandes esperanças eram acariciadas com respeito a ele como capaz e zeloso defensor da antiga fé. Sua elevação a membro do Sinédrio colocou-o numa posição de poder. {AA 62.1}
Saulo tinha tomado parte de destaque no julgamento e condenação de Estêvão, e a impressionante evidência da presença de Deus com o mártir o deixara em dúvida quanto à justiça da causa que ele havia assumido contra os seguidores de Jesus. Sua mente estava profundamente agitada. Em sua perplexidade, consultou aqueles em cuja sabedoria e juízo tinha plena confiança. Os argumentos dos sacerdotes e príncipes convenceram-no, afinal, de que Estêvão fora um blasfemo, que o Cristo que o discípulo martirizado pregara fora um impostor e que tinham forçosamente de ter razão esses que ministravam no santo serviço. {AA 62.2}
Não foi sem um rigoroso exame que Saulo chegou a essa conclusão. Mas, afinal, sua educação, seus preconceitos, seu respeito para com os mestres antigos, e seu orgulho e popularidade deram-lhe força para rebelar-se contra a voz da consciência e a graça de Deus. E, resolvido plenamente a dar razão aos sacerdotes e escribas, Saulo fez acérrima oposição às doutrinas ensinadas pelos discípulos de Jesus. Sua atividade, fazendo com que homens santos e santas mulheres fossem arrastados perante os tribunais, onde alguns eram condenados à prisão, e outros à morte, unicamente por causa de sua fé em Jesus, trouxe tristezas e pesares à igreja recém organizada, e fez muitos buscarem segurança na fuga. {AA 62.3}
Os que foram expulsos de Jerusalém por essa perseguição “iam por toda a parte, anunciando a Palavra”. Atos 8:4. Entre as cidades para as quais foram, achava-se Damasco, onde a nova fé ganhou muitos conversos. {AA 62.4}
Os sacerdotes e príncipes tinham esperado que, por um esforço vigilante e severa perseguição, a heresia pudesse ser suprimida. Compreendiam agora que deveriam prosseguir em outros lugares com as medidas decisivas tomadas em Jerusalém contra o novo ensino. Para o trabalho especial que desejavam fosse feito em Damasco, Saulo ofereceu sua ajuda: “Respirando ainda ameaças, e mortes contra os discípulos do Senhor”, ele “dirigiu-se ao sumo sacerdote, e pediu-lhe cartas para Damasco para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns daquela seita, quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém”. Atos 9:1, 2. Assim, “com poder e comissão dos principais dos sacerdotes” (Atos 26:12), Saulo de Tarso, e usando de toda a força e vigor, e ardendo em um zelo equivocado, pôs-se a caminho naquela memorável jornada, cujas estranhas ocorrências deveriam mudar todo o curso de sua vida. {AA 63.1}
No último dia da viagem, “ao meio-dia” (Atos 26:13), quando os cansados viajantes se aproximavam de Damasco, seus olhos contemplaram o cenário de amplas extensões de terras férteis, belos jardins e pomares frutíferos, banhados pelas refrigerantes correntes das montanhas ao redor. Depois da longa viagem por áreas desoladas, tais cenas eram na verdade aprazíveis. Enquanto Saulo e seus companheiros se deleitavam na contemplação da planície frutífera e da bela cidade abaixo, “subitamente” (Atos 9:3), como ele mais tarde declarou, “envolveu a mim e aos que iam comigo” “uma luz do céu, que excedia o esplendor do Sol” (Atos 26:13), por demais gloriosa para que os olhos mortais a suportassem. Cego e desorientado, Saulo caiu prostrado ao chão. {AA 63.2}
Enquanto a luz continuava a resplandecer em redor deles, Saulo ouviu “uma voz que... falava... em língua hebraica” (Atos 26:14), e “que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que Me persegues? E Ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões”. Atos 9:4, 5. Cheios de temor e quase cegados pela intensidade da luz, os companheiros de Saulo ouviram a voz, mas a ninguém viram. Saulo, porém, compreendeu as palavras que foram faladas; e a ele claramente foi revelado Aquele que falou, a saber, o Filho de Deus. No Ser glorioso que estava diante dele, viu o Crucificado. Na mente do judeu surpreso, a imagem do rosto do Salvador ficou gravada para sempre. As palavras faladas lhe atingiram o coração com terrível força. Nos entenebrecidos recessos do espírito derramou-se-lhe uma inundação de luz, revelando a ignorância e o erro de sua vida anterior e sua presente necessidade de esclarecimento do Espírito Santo. {AA 63.3}
Saulo viu agora que, ao perseguir os seguidores de Jesus, em realidade tinha estado a fazer a obra de Satanás. Viu que suas convicções do direito e de seu próprio dever tinham estado grandemente baseadas em sua implícita confiança nos sacerdotes e príncipes. Tinha crido neles quando lhe afirmaram que a história da ressurreição de Cristo fora um artifício forjado pelos discípulos. Agora que o próprio Jesus Se lhe revelara, Saulo estava convencido da veracidade das reivindicações feitas pelos discípulos. {AA 63.4}
Naquela hora de iluminação celestial, o espírito de Saulo agiu com notável rapidez. Os registros proféticos das Escrituras Sagradas abriram-se-lhe à compreensão. Viu que a rejeição de Jesus pelos judeus, Sua crucifixão, ressurreição e ascensão, tinham sido preditas pelos profetas e demonstravam ser Ele o Messias prometido. O sermão de Estêvão, por ocasião de seu martírio, foi de maneira impressiva trazido à lembrança de Saulo, e ele compreendeu que o mártir sem dúvida contemplava “a glória de Deus”, quando disse: “Eis que vejo os Céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus”. Atos 7:55, 56. Os sacerdotes tinham declarado blasfemas essas palavras, mas Saulo agora sabia que elas eram verdade. {AA 64.1}
Em tudo isso, que revelação para o perseguidor! Saulo sabia, agora com certeza, que o prometido Messias viera à Terra na pessoa de Jesus de Nazaré, que fora rejeitado e crucificado por aqueles a quem viera salvar. Sabia também que o Salvador ressurgira triunfalmente do túmulo e ascendera ao Céu. Naquele momento de revelação divina, Saulo lembrou-se com terror de que Estêvão, que dera testemunho de um Salvador crucificado e ressuscitado, fora sacrificado com seu consentimento, e que, mais tarde, por seu intermédio, muitos outros dignos seguidores de Jesus haviam encontrado a morte pela perseguição cruel. {AA 64.2}
O Salvador falara a Saulo por intermédio de Estêvão, cujo claro raciocínio não pôde ser contraditado. O erudito judeu tinha visto a face do mártir refletindo a luz da glória de Cristo, sendo sua aparência “como o rosto de um anjo”. Atos 6:15. Testemunhara sua clemência pelos inimigos e o perdão que lhes concedera. Tinha testemunhado também a decidida e até alegre resignação de muitos de cujo tormento e aflição tinha sido causa. Tinha visto alguns deporem a própria vida com regozijo, por amor de sua fé. {AA 64.3}
Todas essas coisas tinham apelado altamente a Saulo, e, às vezes, se lhe alojara na mente uma quase avassaladora convicção de que Jesus era o prometido Messias. Nessas ocasiões, ele havia lutado noites inteiras contra essa convicção, e sempre terminara por manter a crença de que Jesus não era o Messias, e que Seus discípulos eram fanáticos iludidos. {AA 64.4}
Agora, Cristo falara a Saulo com Sua própria voz, dizendo: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” E a interrogação: “Quem és, Senhor?” foi respondida pela mesma voz: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues”. Atos 9:4, 5. Cristo aqui Se identifica com Seu povo. Perseguindo os seguidores de Jesus, Saulo tinha batalhado diretamente contra o Senhor do Céu. Em os acusar falsamente, e falsamente testificar contra eles, havia acusado falsamente a Jesus e falsamente testificado contra o Salvador do mundo. {AA 64.5}
Nenhuma dúvida assaltou a mente de Saulo quanto a ser Aquele que lhe falara Jesus de Nazaré, o tão longamente esperado Messias, a consolação e redenção de Israel. “E ele, tremendo e atônito”, perguntou: “Senhor, que queres que faça? E disse-lhe o Senhor: Levanta-te, e entra na cidade, e lá te será dito o que te convém fazer”. Atos 9:6. {AA 64.6}
Quando se retirou a glória e Saulo se levantou do chão, achou-se completamente despojado da visão. O brilho da glória de Cristo fora por demais intenso para seus olhos mortais e, desaparecido esse brilho, a escuridão da noite invadiu-lhe a visão. Ele creu que essa cegueira era um castigo divino por sua cruel perseguição aos seguidores de Jesus. Em terríveis trevas tateava em torno, e seus companheiros, em temor e pasmo “guiando-o pela mão, o conduziram a Damasco”. Atos 9:8. {AA 65.1}
Na manhã desse acidentado dia, Saulo tinha-se aproximado de Damasco com sentimentos de presunção por causa da confiança nele depositada pelos principais dos sacerdotes. Havia sido confiada a ele grande responsabilidade. Fora comissionado para promover os interesses da religião judaica, impedindo, se possível, a disseminação da nova fé em Damasco. Determinara que sua missão seria coroada de êxito e, com ávida antecipação, olhava as experiências que o aguardavam. {AA 65.2}
Quão diferente do que imaginara foi sua entrada na cidade! Ferido de cegueira, desorientado, torturado pelo remorso, não sabendo se outros juízos o aguardavam ainda, procurou ali a casa do discípulo Judas, onde, em solidão, teve ampla oportunidade para refletir e orar. {AA 65.3}
Saulo “esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu”. Atos 9:9. Esses dias de íntima agonia tiveram para ele a duração de anos. Vezes sem conta ele recordava, com o espírito angustiado, a parte que tinha desempenhado no martírio de Estêvão. Com horror, pensava em sua culpa por se haver deixado controlar pela maldade e preconceito dos sacerdotes e príncipes, mesmo quando a face de Estêvão fora iluminada pelas radiações do Céu. Com o espírito triste e quebrantado, reconsiderou as inúmeras vezes que tinha fechado os olhos e os ouvidos às mais tocantes evidências, e persistentemente incrementara a perseguição aos crentes em Jesus de Nazaré. {AA 65.4}
Esses dias de exame de consciência e humilhação do coração foram passados em reclusão íntima. Os crentes, tendo sido advertidos dos propósitos de Saulo em vir a Damasco, temiam estivesse ele fingindo, para mais facilmente iludi-los; e se mantinham arredios, recusando-lhe sua simpatia. Ele não desejava apelar aos judeus não convertidos, aqueles com quem planejara unir-se na perseguição aos crentes; pois sabia que nem sequer dariam ouvidos a sua história. Assim, parecia-lhe estar separado de toda a simpatia humana. Sua única esperança de ajuda estava no misericordioso Deus, e para Ele apelou com o coração quebrantado. {AA 65.5}
Durante as longas horas em que Saulo estivera fechado a sós com Deus, relembrou muitos textos das Escrituras referentes ao primeiro advento de Cristo. Com a memória aguçada pela convicção de que estava possuído, cuidadosamente seguiu o fio das profecias. Ao refletir no significado dessas profecias, ficou pasmado ante a cegueira de entendimento de que estivera possuído, bem como a dos judeus em geral, que os levara à rejeição de Jesus como o Messias prometido. A sua iluminada visão, tudo agora parecia claro. Sabia que seu anterior preconceito e incredulidade tinham-lhe obscurecido a percepção espiritual, impedindo-o de discernir em Jesus de Nazaré o Messias da profecia. {AA 65.6}
Ao render-se Saulo inteiramente ao convincente poder do Espírito Santo, viu os erros de sua vida e reconheceu a amplitude dos reclamos da lei de Deus. Aquele que fora um orgulhoso fariseu, confiante na justificação por suas boas obras, curvou-se, então, perante Deus com a humildade e simplicidade de uma criancinha, confessando sua indignidade e pleiteando os méritos de um Salvador crucificado e ressurgido. Saulo ansiava por entrar em inteira harmonia e comunhão com o Pai e o Filho; e na intensidade de seu desejo de perdão e aceitação, elevou ferventes súplicas ao trono da graça. {AA 66.1}
As orações do penitente fariseu não foram em vão. Os mais secretos pensamentos e emoções de seu coração foram transformados pela divina graça; e Suas nobres faculdades foram postas em harmonia com os eternos propósitos de Deus. Cristo e Sua justiça passaram a representar para Saulo mais que o mundo inteiro. {AA 66.2}
A conversão de Saulo é notável evidência do miraculoso poder do Espírito Santo para convencer os homens do pecado. Ele havia crido que, de fato, Jesus de Nazaré havia desconsiderado a lei de Deus, ensinando aos Seus discípulos ser a mesma de nenhum valor. Mas, depois de sua conversão, Saulo tinha reconhecido Jesus de Nazaré como Aquele que viera ao mundo com o propósito expresso de defender a lei de Seu Pai. Estava convencido de que Jesus fora o originador de todo o sistema judaico de sacrifícios. Viu que o tipo da crucificação tinha encontrado o antítipo; que Jesus havia cumprido as profecias do Antigo Testamento, concernentes ao Redentor de Israel. {AA 66.3}
No relato da conversão de Saulo, encontramos importantes princípios que devemos sempre ter em mente. Saulo foi levado diretamente à presença de Cristo. Foi uma pessoa designada por Cristo para uma importantíssima obra, alguém que seria “um vaso escolhido” (Atos 9:15), para Ele; no entanto, o Senhor não lhe disse imediatamente qual era a obra para ele designada. Embargou-lhe o caminho e convenceu-o do pecado; e quando Saulo perguntou: “Que queres que faça?” (Atos 9:6) o Salvador colocou o indagador judeu em contato com Sua igreja, para que obtivesse o conhecimento da vontade de Deus em relação a ele. {AA 66.4}
A maravilhosa luz que iluminara as trevas de Saulo era obra do Senhor; mas havia também um trabalho a ser feito em favor dele pelos discípulos. Cristo tinha realizado a obra de revelação e convicção. Agora, o penitente estava em condições de aprender daqueles a quem o Senhor tinha ordenado que ensinassem a Sua verdade. {AA 66.5}
Enquanto em recolhimento na casa de Judas, Saulo continuava em oração e súplica, o Senhor apareceu em visão a “certo discípulo” em Damasco, “chamado Ananias”, dizendo-lhe que Saulo de Tarso estava orando e necessitava de auxílio. “Levanta-te, e vai à rua chamada Direita,” disse o mensageiro celestial, “e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso chamado Saulo; pois eis que ele está orando; e numa visão ele viu que entrava um homem chamado Ananias, e punha sobre ele a mão, para que tornasse a ver”. Atos 9:10-12. {AA 67.1}
Ananias mal podia crer nas palavras do anjo; pois a notícia da tenaz perseguição aos santos em Jerusalém tinha-se espalhado amplamente. Atreveu-se a argumentar: “Senhor, a muitos ouvi acerca deste homem, quantos males tem feito aos Teus santos em Jerusalém; e aqui tem poder dos principais dos sacerdotes para prender a todos os que invocam o Teu nome” Mas a ordem foi imperativa: “Vai, porque este é para Mim um vaso escolhido, para levar o Meu nome diante dos gentios, e dos reis e dos filhos de Israel”. Atos 9:13-15. {AA 67.2}
Obediente à orientação do anjo, Ananias saiu em busca do homem que ainda pouco antes havia respirado ameaças contra todos os que criam no nome de Jesus; e colocando as mãos sobre a cabeça do penitente sofredor, disse: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo. E logo lhe caíram dos olhos como que umas escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado”. Atos 9:17, 18. {AA 67.3}
Dessa maneira confirmou Jesus a autoridade de Sua igreja organizada, e pôs Saulo em contato com Seus instrumentos apontados na Terra. Cristo tinha, agora, uma igreja como Sua representante na Terra, e a ela pertencia a obra de dirigir os pecadores arrependidos no caminho da vida. {AA 67.4}
Muitos têm a idéia de que são responsáveis somente a Cristo pela luz e experiência que possuem, independentemente de Seus reconhecidos seguidores na Terra. Jesus é o Amigo dos pecadores, e Seu coração se confrange por seu infortúnio. Ele possui todo o poder, tanto no Céu como na Terra; mas respeita os meios por Ele ordenados para o esclarecimento e salvação das pessoas; dirige os pecadores para a igreja por Ele feita instrumento de luz para o mundo. {AA 67.5}
Quando, em meio ao seu erro e cego preconceito, Saulo recebeu uma revelação de Cristo, a quem estava perseguindo, foi ele colocado em comunicação direta com a igreja, a qual é a luz do mundo. Nesse caso, Ananias representava Cristo, como representa também os ministros de Cristo sobre a Terra, os quais são indicados para agir em Seu lugar. No lugar de Cristo, Ananias tocou os olhos de Saulo para que ele recobrasse a visão. Em lugar de Cristo, colocou suas mãos sobre ele, e enquanto orava em nome de Cristo, Saulo recebeu o Espírito Santo. Tudo foi feito no nome e pela autoridade de Cristo. Cristo é a fonte; a igreja, o canal de comunicação. {AA 67.6}

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